Texto

Docere, delectare, movere: o que pode uma imagem.

Paulo Veiga Jordão
Rosana Horio Monteiro

Sem câmera ou papel fotográfico, as polaroides (in)visíveis de Tom Lisboa não são fotografias convencionais; talvez não sejam mesmo fotografias. O artista produz “imagens declaradas” ao substituir as imagens por textos que as descrevem. São “fotografias mentais”, sempre singulares, originais, produzidas pelo observador.

As polaroides (in)visíveis são quadriláteros de papel amarelo que o artista espalha pelas cidades. Descrevendo ângulos, situações, micro-paisagens urbanas, tornando o oculto transparente, ele nos oferece o deleite de construirmos triangulações lúdicas entre o que lemos, pensamos e vemos, onde imagem declarada, imagem imaginada e imagem vista se entrelaçam e se completam poeticamente.

Trabalhando dentro da vertente neo-conceitual da arte contemporânea, Tom Lisboa promove jogos, equivalências e substituições entre imagem e texto; produz textos que têm como função revelar imagens em nossas telas mentais. O artista imprime fotos não seriais que surgem pela química do cérebro.

O caráter conceitual da obra facilita seu deslocamento. Conceitos movem-se velozmente mais do que a matéria. Com um olhar microscópico sobre a cidade, Tom Lisboa espalhou 100 polaroides em diferentes pontos de Curitiba e produziu um mapa de visitação da cidade e da própria obra no formato de um catálogo e de um site. As polaroides, dado seu caráter efêmero, provavelmente não estarão mais nos locais de origem quando esse texto for lido. As paisagens que elas declaram, porém, estarão ainda lá e, munido deste catálogo-mapa, poderemos encontrá-las e registrá-las mnemonicamente, obtendo “fotografias” inalienáveis.

O que pode uma imagem? Os retóricos romanos diziam que a imagem informa (docere), deleita (delectare) e move (movere). Hoje, as polaroides (in)visíveis de Tom Lisboa nos relembram esta antiga lição. Elas nos informam sobre a cidade, sobre ângulos insuspeitados do tecido urbano; elas nos deleitam pelo jogo imagético-conceitual. Elas se movem e nos induzem ao movimento, quando nos atraem aos locais descritos. São interferências sutis e generosas, que se iniciam na topografia da cidade, orientam-nos e deixam-se capturar pela retina para, depois, se instalarem nas reentrâncias da memória.

* Paulo Veiga Jordão é artista, integrante do grupo Empreza e professor da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás (UFG). Rosana Horio Monteiro é professora do Mestrado em Cultura Visual da Universidade Federal de Goiás (UFG), autora do livro Descobertas múltiplas. A fotografia no Brasil (1824-1833), publicado pela editora Mercado de Letras/Fapesp em 2001.